
Muitas pessoas me perguntam porque deveriam ir para o campo. Eu penso comigo: “porque a vida está lá!”. Não a vida cotidiana, com aquela correria, trânsito, insegurança… Aquele blá, blá, blá que todos conhecem, e sim a vida simplificada.
Já explico. Recordo-me a primeira vez em que fui a uma pousada rural, meio a contragosto, pois, o que faria um moleque criado na cidade grande numa fazenda? Olhar os cavalos? Ver o mato? Para isso existe a TV, certo? Fui! Contrariado. Mas admito que ao chegar na pousada, tudo mudou. Os campos, em volta, pareciam um “quintalzão”, sem nenhum edifício ou muro, que bloqueasse minha visão, mas não comentei nada.
Outro momento engraçado, que recordo hoje, foi ver a quantidade e variedade de alimentos na mesa do café da manhã, quando pensei: “se soubesse disso antes, nem teria jantado ontem!”. Parece exagero, mas não é, quem conhece concorda. Existem sabores e sensações que a TV não mostra, o bolo de fubá que me lembrou as férias escolares na casa da minha avó, ou quando fiz meu primeiro passeio a cavalo. Ah! Naquele momento era o caubói das “pernas bambas”. Ainda bem que eu não era o único que nunca havia montado, estavam ali comigo pessoas que mais tarde se transformariam em grandes amigos.
Um dia inteiro de passeio, entre campos, matas, rios, estradas de terra e barro. Estávamos num grupo de 60, 30 pessoas e 30 cavalos, conto os cavalos, pois quem nunca atribuiu alguma característica ou personalidade (calmo, ligeiro, assustado, bonito…) à sua montaria?
Na hora do almoço provei o sabor das “comidas típicas”, nesse ponto do passeio agradeci por estar ali, sujo, cansado, com fome, cheirando a cavalo, com as pernas meio moles e felizes entre aquela gente boa, misturado à peonada.
Nesses lugares as pessoas não se preocupam em ostentar posição social ou bens materiais, por isso a vida se resume a uma boa prosa, ficar olhando o infinito, a aventura, olhar a roupa suja e rir. É ter a sensação de que está tudo bem, deixar a vida seguir ao passo do cavalo, ouvir Sérgio Reis no rádio e prestar atenção nas letras das músicas achando aquela situação agradavelmente diferente.
Quando retornávamos à pousada, era noite de céu limpo, até então não tinha me dado conta de como a lua brilhava e o quanto iluminava aquela estradinha tão distante da energia elétrica, até ver as nossas sombras no chão. Como já citei, muitas pessoas me perguntam qual o motivo para ir ao campo. Eu penso comigo e digo com um sorriso: – Porque a vida está lá! No fim de semana a minha TV fica desligada.
Texto de 1994. por Fabrício Alencar.